Pandemia
Da restrição para a aglomeração
Mobilização de empresários foi impulsionada por Luciano Hang, que marcou presença em ato na cidade
Carlos Queiroz -
Com o calor de 36°C, a sexta-feira (11) era pra ser lembrada apenas pela alta temperatura e pelo distanciamento social, na tentativa de barrar o alto contágio da Covid-19. Mas foi marcado pela aglomeração de empresários e funcionários do comércio da cidade. Uma manifestação, com a presença do empresário Luciano Hang, proprietário das lojas Havan, ocorreu na frente da prefeitura de Pelotas. O objetivo era um só: reabrir os serviços não essenciais em meio aos 12.041 infectados e as 215 mortes e no dia em que a região entrou pela primeira vez em bandeira preta pelo distanciamento social do governo do Estado.
O início do ato contou com a fala do empresário e de funcionários da loja da cidade, local que foi interditado durante a manhã de sexta por descumprir o decreto municipal. “Os políticos trabalhando ou não estão com seus salários garantidos, com a gente é diferente, pois temos responsabilidade com nossos colaboradores”, disse Hang. Para o empresário, que não tem nenhuma formação acadêmica na área da saúde, a solução é aumentar os horários para que as pessoas consigam manter o distanciamento social. Esse pronunciamento foi feito na frente do prédio do Executivo com centenas de pessoas aglomeradas. “Fechar é falta de inteligência e de comprometimento da prefeitura”, completou.
Proprietário de 153 lojas espalhadas por todo o país, ele que usava sua tradicional roupa verde e amarela e uma camiseta escrita “o Brasil que queremos só depende de nós”, garantiu que esteve na cidade pelos empreendedores e pelos trabalhadores. Hang acredita que o Poder Público deseja ter a população como seus dependentes, sem nenhuma liberdade e, para isso, são concedidas esmolas invés de salários. “É direito constitucional defender a nossa liberdade, não viemos aqui quebrar nada, apenas pedir para trabalhar [...] não podemos aceitar a ditadura do coronavírus”, falou durante seu discurso. Na oportunidade, também disse que aqueles que não defendem as empresas querem que a população seja manipulada pela mídia, e que dependam de “Bolsa Miséria”, fazendo referência ao Bolsa Família, um dos maiores programas de distribuição de renda, direcionado às famílias em situação de pobreza e de extrema pobreza em todo o país.
Também contou que em suas lojas o índice de infectados é muito pequeno, pois garante que funcionários do grupo de risco não estão expostos. “Só trabalha quem pode”, disse. Mesmo assim, reforçou que as pessoas não podem ter medo de viver e de sair de casa, já que doenças cardíacas mataram mais que o novo vírus, segundo ele. Cercado de funcionário da sua loja, ele pediu que a prefeita Paula Mascarenhas (PSDB) reconsidere o decreto e garantiu que não obrigou nenhum de seus colaboradores a estarem no local, em seguida a pergunta: “Não é isso, pessoal?"
Em conversa com a reportagem, ele foi indagado se informou-se sobre o cenário sanitário da cidade antes de embarcar. Respondeu que isso está diretamente ligado ao que o Poder Público fez. “Se as UTI’s estão lotadas é por falta de planejamento da prefeitura”, ressaltou. Como falou durante o discurso que o distanciamento social era essencial, foi questionado se não acreditava que soava irresponsável fazer centenas de trabalhadores e empreendedores se aglomerarem. A resposta veio rápido: “Não, não acho, eles estão ao ar livre e de máscara”, disse, sem máscara. Em seguida, questionou: “Até o segundo turno podia aglomeração? Agora está proibido?”.
Comportamento que chamou atenção
A manifestação foi pacífica e nenhum tipo de desentendimento foi registrado, mas, como de costume, diversos profissionais e viaturas dos órgãos de segurança estiveram no local. Entretanto absolutamente nada foi feito para barrar a aglomeração que tomou conta da frente da Prefeitura. De acordo com o decreto 6.349/ 2020, Art. 3°: “Fica proibida a permanência de pessoas em locais públicos abertos, sem controle de acesso, tais como praças, parques, praias e respectivas orlas, canteiro central de avenidas e outros espaços similares, permitindo-se apenas a circulação”.
Resultados da fiscalização
Desde às 19h de quinta-feira (10) até as 17h desta sexta, a Guarda Municipal e os fiscais da Secretaria Municipal de Gestão de Cidade e Mobilidade Urbana (SGCMU) atenderam 65 denúncias de descumprimento, sendo quatro estabelecimentos comerciais lacrados e três autuados por irregularidades. As equipes de fiscalização trabalham sob regime de plantão e os números serão contabilizados ao final do turno, que transcorre das 8h da manhã até a 1h da madrugada.
Participam das ações de fiscalização, além da Guarda Municipal e da SGCMU, também a Brigada Militar, Polícia Civil e fiscais da Vigilância Sanitária de Secretaria Municipal de Saúde (SMS).
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